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Conde Koma

Conde Koma - Patriarca do Judo e Jiu Jitsu no Brasil

Japão, Estados Unidos, México, Rússia, Alemanha, Itália, Inglaterra, Bélgica, Espanha e Brasil.

Este foi o caminho percorrido, com êxito, por Mitsuyo Maeda, o "Conde Koma", nascido na Vila de Fumugawa (Aomori, cita outras fontes), uma província de Hirozaki, no Japão, em 1880.

Mitsuyo Maeda 1880 - 1941

Maeda, o introdutor do Judô e do Jiu-Jitsu no Brasil, começou a vida nas artes marciais praticando sumo, contudo sua compleição física (1,60m e 70kg) não era mais adequada à pratica daquela arte, levando-o a optar por outra modalidade marcial que não exigisse grande porte físico.

Foi a partir daí que entrou para o Kodokan, atual Centro Mundial de Judô, que na época unificava os vários estilos de Jiu-Jitsu.

Maeda conseguiu impor-se no JUDÔ e obteve valorosas vitórias, ficando conhecido no Japão como "O homem das mil lutas".

Consta que Maeda também treinou com um mestre do estilo Kito Ryu.

Em meados de 1904, já como judoca de 4º grau e, após obter o titulo de campeão Japonês e, posteriormente, campeão Mundial, Maeda afastou-se das competições.

E o motivo deste afastamento era simples: não havia mais competidores à sua altura e ele teria que ceder seu posto a outro lutador.

Mas, o afastamento em competições não foi motivo de tristeza para Maeda, pois o presidente dos Estados Unidos, Theodore Roosevelt, havia solicitado a Jigoro Kano, fundador do Judo, que propagasse esta arte na América.

Roosevelt (1858-1919), o 26º presidente dos EUA, adotou uma política externa expansionista, incluindo também os esportes em geral. Desta forma Jigoro Kano, uniu-se a Maeda, Tsunejiro Tomita (seu principal pupilo) e Shinshiro Satake, para iniciar o desenvolvimento da, então, recém criada modalidade, o Judô.

Ainda em 1904 foi dada a Maeda a chance de ir para os Estados Unidos com um dos seus instrutores, Tsunejiro Tomita.

"O Homem das Mil Lutas"

O primeiro local onde juntos fizeram demonstrações de judô foi a academia do Exército norte-americana em West Point.

Ao contrário do que foi publicado, eles nunca foram para a Casa Branca nem conheceram na ocasião o presidente americano, Teddy Roosevelt.

Foi o grande Kodokan Yoshitsugu Yamashita que ensinou judô para Roosevelt na Casa Branca e depois participou de uma luta com um oponente que possuía quase duas vezes seu tamanho por pedido de Roosevelt, mas esta luta aconteceu na academia Naval norte-americana em Annapolis.

Yamashita ganhou com uma chave de braço.

Houve uma demonstração também em West Point , porém, não foi muito boa.

Tomita e Maeda começaram com um kata, mas os americanos não entenderam o que estavam vendo. Maeda foi então desafiado por um estudante, campeão de luta livre.

O combate se complicou quando o estudante agarrou Maeda.

Não familiarizado com o estilo de luta do estudante, Maeda continuou lutando até conseguir criar durante o combate uma situação que lhe fosse familiar ao judô, e o derrubou.

Os estudantes quiseram então ver Tomita em uma luta. Considerando que ele era o instrutor, eles supunham ser Tomita o melhor dos dois.

Porém, a verdade era que já haviam se passado 40 anos desde o auge de Tomita.

Ele tinha trazido Maeda para ajudar com as demonstrações, mas não pretendia se ocupar com lutas e desafio.

Ele não teve nenhuma escolha, e vacilou quando o seu oponente americano, muito maior se apressou e o agarrou.

Tomita foi pegado pelo peso do seu oponente e foi forçado a se render.

Importa ressaltar que naquela época as técnicas do Judô eram, em sua maioria, as do Jiu-Jitsu.

A propagação iniciou-se com novos desafios a Maeda, que defrontou-se com inúmeros adversários, em combates que só terminavam com a rendição de um lutador, como por exemplo, o combate frente a Butch Boy, exímio lutador de Luta-Livre (113Kg e 1,80m), realizado em Nova York (EUA).

Este tipo de combate parecia renascer o espírito Shogun do Japão Antigo, no qual o Samurai entrava numa contenda sem temer jamais a morte.

Ao realizar sua meta inicial e, após vencer inúmeros desafios, Maeda seguiu à Europa, por volta de 1908, aportando em vários países, como a Rússia, Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Bélgica e Espanha.

Esta foi a mesma época em que os primeiros imigrantes nipônicos aportaram no Brasil, que começava a "abrir as portas" aos estrangeiros para estimular o desenvolvimento agrícola do país.

Consta que os primeiros lutadores certamente anônimos, chegaram nesta época e no mesmo navio "Kasato Maru", no entanto, só passavam os conhecimentos da arte suave a seus compatriotas.

1916 - Maeda (em pé à direita)
e seus primeiros alunos no Brasil

Na Europa, Maeda repetiria sua saga, com numerosas vitorias sobre os que ousaram enfrentá-lo.

Foi nesta época que recebeu o honroso título de "Conde Koma".

Retornando à América, primeiramente ao México, passou em seguida por Cuba, vindo, finalmente ao Brasil em 1913.

Maeda aportou em Santos (SP) e passou por várias cidades brasileiras, fixando-se em Belém (PA).

Sua paixão pelo Brasil era tanta que Maeda, mesmo saindo de Belém e voltando ao Japão, onde permaneceu por dois anos, retornou a cidade paraense, estabelecendo residência definitiva.

Sua academia, que funciona até hoje em Belém, possuía um Dojo de 16m2, construído em madeira e coberto de serragem, que fazia as partes do tatami.

Era lá que Maeda treinava vários alunos e um, em especial, destacava-se com uma gana e vontade impressionantes:

Carlos Gracie, o homem que deu seqüência aos ensinamentos de Maeda e que foi o maior propagador do Jiu-Jitsu no Brasil e que recebeu o título de "Patriarca do Jiu-Jitsu brasileiro".

Sua família, a mais importante nesta arte marcial, originou um estilo próprio e eficaz de combate, tornando a modalidade muito popular no Rio de Janeiro (RJ) e no Brasil inteiro, chegando a exportar o estilo à outros países, com total sucesso.

Afora suas atribuições com o esporte, Maeda tinha um papel fundamental para os imigrantes japoneses e não poupava esforços para que se adaptassem da melhor maneira no Brasil.

Maeda tinha um sonho em construir uma nova pátria e até tinha escolhido um local, a Amazônia.

No entanto, encontrou vários empecilhos e não pode colocá-lo em prática.

Outra fase conturbada na vida de Maeda foi com a Revolução de 1930, pois os imigrantes japoneses estavam perdidos na confusa fase da História brasileira e resolveram voltar ao seu país de origem.

Esta revolução foi um movimento político-militar que pôs fim à Primeira República e teve a liderança civil de Getúlio Vargas e o general Góis Monteiro no comando militar.

O então presidente Washington Luís foi deposto a 24 de outubro por uma Junta Militar, que transmitiu o poder a Vargas.

Começava, então, a chamada "Era Vargas", marcada pelo autoritarismo e pela centralização do poder.

Apesar de seus compatriotas terem deixado o Brasil e seguido novamente para o Japão, Maeda aqui ficou, mesmo após o governo paraense ter tomado de volta cerca de 10 mil hectares de terra que haviam-no cedido anteriormente.

Permaneceu num misto de humildade e altivez, continuando a educar e ensinar, tornando-se querido por todos, sobretudo pelas crianças que sempre o rodeavam, chegando ao ponto de receber novamente os 10 mil hectares, fato que demonstrou bem o quanto Maeda era importante para o governo paraense.

No âmbito pessoal, Maeda casou-se com a inglesa Mary, mas, não teve descendentes e, assim, adotou Celeste, uma garota natural de Belém(PA) a quem amou como se fora filha legítima.

Maeda morreu no "auge" da II Guerra Mundial (1939 a !945), com 61 anos, a 28 de novembro de 1941, precisamente às 4h 05, vítima de incurável uremia.

Consta que, ao sentir esvaírem-se as forças, pediu água e ao sorvê-la teria murmurado, já com a voz tremula e longínqua: "parece água do Japão...quero voltar ao Japão".

O corpo foi sepultado no cemitério Santa Isabel, em Belém(PA), em túmulo doado pelo governo do Pará, fato que demonstrava a gratidão por seus esforços e árduo trabalho.

O mérito de Mitsuyo Maeda perpetua-se e se perpetuará até quando, de uma forma ou de outra, viver a arte que trouxe do Japão e aqui ensinou com tanto desvelo.

Anônimo para muitos brasileiros - sobretudo as novas gerações - Maeda ainda é lembrado no berço natal onde, apesar de ter vivido pequena parte de sua vida, deixou a realização de uma obra.

Cortesia do Sensei Silvio Rodrigues - www.karatebarretos.com.br