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Combate à criminalidade no Brasil: Uma questão de exemplo

Fazendo um diagnóstico sobre a criminalidade que atormenta o impávido colosso, é interessante, de cara, diagnosticar se o gigante Brasil está de fato deitado eternamente ou se não foi mesmo derrubado, gravemente ferido já no seu descobrimento por uma corja de exploradores e até hoje não consegue mais levantar-se.

Particularmente, prefiro acreditar que o gigante pela própria natureza nunca foi um preguiçoso, inimigo da ordem e progresso, daí não creio que por espontânea vontade esteja a quedar-se languidamente há mais de 500 anos sem se dispor a assumir um papel mais relevante no contexto nas nações.

Prefiro crer que o gigante está acordado, mas ferido por uma – reduzida, diga-se de passagem –mas perigosíssima canalha que infesta seu corpo, espoliando suas potencialidades, impedindo-o de cumprir o tão desejado papel de pátria amadapara todos os brasileiros, sem discriminação.

Sobre a questão da CRIMINALIDADE envolve-me um sentimento de imensa frustração cada vez que assisto a debates onde representantes de órgãos de segurança pública, políticos, jurisconsultos, educadores, religiosos etc. cada um, usando a lógica própria do seu segmento, apega-se a aspectos técnicos que, embora em si corretos, não chegam ao âmago da questão.

Aí aparecem as teses: aumentar o efetivo e aparato policial; tornar mais rígida a legislação específica; investir mais na educação; ampliar a seara religiosa, e por aí vai. Até concordo na validade de se investir bem muito mais do que se faz nestas áreas: com certeza não pioraria as coisas. Mas duvido que melhore.

Senão, vejamos:
         - Ampliar, treinar e aparelhar o efetivo militar não resolverá o problema assim como o exército mais poderoso do mundo – dos EUA – não está se saindo bem contra a revolta popular no Iraque; da mesma forma que, guardadas as devidas proporções, as forças militares no Rio de Janeiro também não têm êxito contra as ações do crime organizado.
         - Mudou-se a legislação, mas não diminuíram as atividades criminosas. Seqüestros, “blitz” de bandidos, “arrastões”, assaltos e ataques a transportes coletivos... até o número de agressões a bala aumentou apesar da tão pomposa “Campanha do Desarmamento”(que tanto dinheiro público jogou fora, como se sabe) Quanto a esta Campanha parece que só os idealizadores da mesma não sabiam que não ia adiantar nada e até facilitou a vida da bandidagem, posto que agora eles têm a certeza de que podem investir sem risco contra qualquer cidadão pois o encontrará desarmado.
         - No que dizem respeito à Educação, os próprios dados oficiais apontam crescimento no número de salas de aula, aumento no número de escolas, universidades e, claro, elevação na ocupação das salas de aulas. Porém a quase totalidade dos personagens envolvidos nos grandes crimes divulgados na mídia por todo o país são pessoas cultas, com especialização profissional: estudantes universitários, policiais, delegados, advogados, juízes, políticos, empresários, líderes religiosos etc. Daí que questiono em si a ênfase amiúde dada à educação como solução contra a criminalidade.
         - E a religião? Ora, religiosidade é o que não falta ao povo brasileiro. É difícil encontrar um ateu – e mesmo um bandido ateu. As cadeias estão cheias de religiosos, os bandidos das facções criminosas são religiosos, os criminosos de colarinho branco são religiosos e têm até líderes religiosos criminosos. Afinal, até aí nada de novo: crimes de toda espécie têm conspurcado a História da Humanidade, sob a égide do pensamento religioso.

E então você me pergunta qual a saída, a solução para o caos da desordem que inexoravelmente se agiganta a devorar a paz social.

Minha resposta se fundamenta em duas importantíssimas citações:
         1ª- “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto. (Senado Federal, RJ. Obras Completas. Rui Barbosa. V.41, t.3, 1914, p.86)”.

Quando aqui fala de nulidades, desonra, injustiça, mãos dos maus, Rui Barbosa se refere aos que detêm “os poderes”, ou seja, aos chamados grandes, aos homens de destaque e influência na sociedade, e não às pessoas comuns do povo, nem mesmo aos integrantes do PCC e muito menos aos “ladrões de galinha”. Na época suas palavras foram erigidas como uma crítica às lideranças políticas, econômicas e sociais do Brasil e hoje, mais do que nunca, preservam seu significado.

Segundo Rui Barbosa, o que decorria da atitude condenável das lideranças? O MAU EXEMPLO; ou seja: para Rui Barbosa, o MAU EXEMPLO é tido como formador da opinião de que não valia a pena ser virtuoso, honrado, honesto.  

E as lideranças são a cabeça e o coração do país.
Bem ou mal, estas lideranças são O EXEMPLO a ser seguido.  E aí está a RAIZ do problema da criminalidade no Brasil.

A 2ª citação: “Toda a cabeça está doente, e todo o coração enfermo”. Bíblia, Isaías 1:5. Você concorda comigo, que as expressões de Rui Barbosa se harmonizam perfeitamente com as palavras do Profeta Isaías. Este pestilento lamaçal de corrupção e impunidade que afoga o Brasil assume a tenebrosa forma de uma incurável doença.

Note bem que na correlação das duas citações, duas figuras se assomam com clareza: 1ª – nas palavras de Rui Barbosa, os autores do “mau exemplo”, constituídos pelas lideranças corruptas e 2ª – nas palavras do Profeta Isaías, a imagem do sistema de liderança sob a forma de um corpo doente: cabeça doente e coração enfermo.

Nesta linha de raciocínio não é difícil identificar o corpo doente. Este corpo doente está representado pela triunidade (independentes, mas harmônicos... ou coniventes?) dos poderes representativos do Estado Brasileiro: Poder Executivo, Legislativo e Judiciário. Este corpo doente pode ser visualizado ainda com maior clareza se observado em sua forma geopolítica: a cabeça  doente do nosso país está representada por BRASÍLIA – centro do poder e tomada das grandes decisões nacionais, e onde, lamentavelmente, imperam os mais sórdidos escândalos envolvendo destacados homens públicos. O coração enfermo (ou sistema circulatório) é toda extensão do referido sistema, igualmente corrompido, nos níveis municipal e estadual.

Reforço minha tese do MAU EXEMPLO como principal estimulo e motivação à crescente onda de criminalidade no nosso país, aplicando ainda a definições dadas no Dicionário Aurélio à palavra “exemplo”: 1. Tudo quando pode ou deve ser imitado; modelo. 2. Fato de que se pode tirar proveito ou ensino; lição.

Qualquer educador, legislador ou religioso sabe da importância do “exemplo” e igualmente do “mau exemplo”, os quais tendem a ser imitados, a servirem de modelo, como deles se pode tirar proveito, fazer deles uma lição.

Aí poderíamos citar inumeráveis tipos de maus-exemplos, mas não quero chamar a atenção para um diminuto cocô de passarinho se diante de nossos olhos e narizes se depara imensa fossa sanitária a céu aberto.

Não percamos de vista que quando falamos de criminalidade, referimo-nos a onda de crimes cometidos por assaltantes contra o patrimônio privado (pessoa física e jurídica) e público; do crescimento da onda de violência por conta desses crimes, praticados por ladrões “baratos” e por grandes quadrilhas; e é precisamente aqui que quero enfatizar o papel da influência do mau-exemplo decorrente de atos reprováveis das lideranças, ou seja: da cabeça do nosso país.

Denuncias contra juízes, desembargadores, políticos, ministros de Estado e outras autoridades envolvidas em prática de corrupção grassam na mídia ao mesmo tempo que o cidadão comum é também ato contínuo informado que tais criminosos se safaram impunes. Políticos “sofrem” no máximo a perda temporária do mandato, para depois retornarem e ainda gozarem do privilégio de contar com o apoio de recursos públicos nas suas campanhas; juizes “sofrem” simples afastamento, mantendo gordas aposentadorias. “Sofrem” com aspas mesmo, porque na verdade isso não é punição, mas um prêmio aos corruptos. É LEGALIZAR, CONSTITUCIONALIZAR A CORRUPÇÃO.

Como um homem pode ser preso por “bater” uma carteira e outro ficar livre após roubar milhões de reais? Como um servidor público pode ser demitido por justa causa e “ficar lascado” pelo resto da vida porque levou uma resma de papel da repartição e outro seguir impune após desviar da mesma repartição milhões de reais em dinheiro público? Como pode um servidor de baixo escalão perder seu emprego porque levou o filho ao colégio num carro da repartição (pra economizar o minguado salário) e um chefão ficar impune ao mandar seu cachorro ao veterinário num luxuoso carro oficial? Onde está a Justiça nisto?

Um erro não justifica outro, é verdade. Mas insisto na tese de que se ponha um fim no mau exemplo que pesoas em funções de líderança dão ao país. Aí sim, punindo severamente os malfeitores de colarinho branco, dar-se-á um BOM EXEMPLO para a geração presente e as futuras de que o crime não compensa.

Cadeia neles! Confisque-se-lhes o patrimônio fruto da corrupção. Nada de aposentadorias, que percam definitivamente seus direitos políticos. Coloquem-nos em celas comuns, nada de prisão especial. Que paguem por seus crimes, sem privilégios.

Aí vocês me perguntam: - E quem vai fazer isso com esses bandidos?

Bem, em nenhum momento afirmei que não mais existem homens decentes em nosso país, que não existem homens e mulheres íntegros exercendo funções de destaque. De forma alguma afirmei que todos os representantes dos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são corruptos ou corruptíveis. Aos íntegros cabe o combate à corrupção e a restauração da prática do bom exemplo.

A nós, o povo, cabe-nos acompanhar os acontecimentos, sair da alienação em face aos problemas nacionais, pressionar e oferecer apoio àqueles que reconhecidamente assumem uma postura de justiça e dignidade; manifestar diretamente e com veemência nosso repúdio aos líderes delinqüentes, organizar e participar de manifestações de protesto contra os corruptos e, sobretudo, NÃO NOS DEIXARMOS INFLUENCIAR PELO MAU EXEMPLO DAQUELES, lutando com ânimo e muita perseverança para melhorar nossas condições de vida, palmilhando sempre o caminho da honestidade.

O acúmulo de riquezas nunca foi nem o será padrão de sucesso na vida. Paz interior, este é o padrão do sucesso, especialmente aos que de fato crêem na vida eterna.

Disse Jesus: “ - Pois que aproveitará o homem ganhar o mundo inteiro  e perder a sua alma?” Bíblia – Mt 16:26.

Não seja somente uma vítima. Assuma uma postura de luta contra o mal e comece atacando o verdadeiro adversário; e este está representado exatamente por aqueles que por ocuparem lugar de liderança e destaque em nosso país deveriam ser os primeiros a darem o BOM EXEMPLO.

Estava eu pensando como concluir o presente artigo quando recebi de um amigo que prefiro chamar de irmão, Dr. Ronaldo Pinheiro, Advogado, um e-mail relatando um revoltante acontecimento que só confirma com a mais profunda veemência todas as afirmações que fiz acima.  Transcrevo para você o exato teor do e-mail:
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ISTO É BRASIL!!!
Eis o porque da expressão “deixar o cachorro passar e implicar com a pulga”... Chocante!!!
Isso foi exibido em todos os telejornais noturnos na quinta feira.
Ailton, 28 anos, casado com Sônia, grávida de 4 meses, desempregado há dois meses, sem ter o que comer em casa foi ao rio Piratuaba, São Paulo, a 5 km de sua casa pescar para ter uma “misturinha” com o arroz e feijão. Pegou 900 g de lambari, e, sem saber que era proibida a pesca, foi detido por dois dias, levou umas porradas.
Um amigo pagou a fiança de R$280,00 para liberá-lo e terá que pagar ainda uma multa ao IBAMA de R$724,00.
A sua mulher Sônia, grávida de 4 meses, sem saber o que aconteceu com o marido que supostamente sumiu, ficou nervosa e passou mal, foi para o hospital e teve aborto espontâneo.
Ao sair da detenção, Ailton recebe a notícia de que sua esposa estava no hospital e perdeu seu filho, pelos míseros peixes que ficaram apodrecendo no lixo da Delegacia.
Quem poderá devolver o filho de Sônia e Ailton?
Henri Philippe Reichstul, de origem estrangeira, Presidente da PETROBRAS, responsável pelo derramamento de 1 milhão e 300 mil litros de óleo na Baia da Guanabara, matando milhares de lambaris e pássaros marinhos; responsável pelo derramamento de cerca de 4 milhões de litros de óleo no Rio Iguaçu, destruindo a flora e fauna e comprometendo o abastecimento de água em várias cidades da região – crime contra a natureza, inafiançável, encontra-se em liberdade. Pode ser visto jantando nos melhores restaurantes do Rio e Brasília.
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Caro leitor, não perca sua capacidade de se indignar.

Dárcio Lira , Kyoshi
Shima Obi 7 Dan
Fortaleza-CE-Brasil, 11/05/2007.

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Autor: 
Dárcio Lira , Kyoshi
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Data: 
sexta-feira, 11 Maio, 2007

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